Esta e uma série de reportagens publicadas em 16 de fevereiro de 2022 pelo Jornalista Fábio Bispo do Portal Infoamazonia Fita silver tape, rastros de pneu e pegadas. Foram nos vestígios mais improváveis que a Polícia Civil encontrou os indícios que levaram à comprovação da existência de uma milícia armada instalada na Assembleia Legislativa de Roraima (ALERR). Segundo as investigações, o grupo era comandado pelo deputado Jalser Renier (Solidariedade) e formado por policiais militares de elite, incluindo três coronéis e um major, todos lotados no Serviço de Inteligência e Segurança Orgânica da Assembleia (SISO). Entre 2015 e 2020, por ordens do deputado, o grupo teria praticado uma série de crimes, incluindo espionagem de adversários, sequestro, fornecimento de armas para garimpos ilegais e segurança armada para empresas e políticos. A polícia também identificou ligação do grupo investigado nos negócios da financeira By Money, que movimentou de forma ilícita mais de R$ 90 milhões no ano passado e que “faliu” logo após as primeiras prisões dos envolvidos. O SISO foi criado pelo próprio deputado Jalser em 2016, quando ocupava a presidência da ALERR, e tinha como atividade principal a apuração de fatos relacionados ao parlamento roraimense. No entanto, as atividades do grupo iam muito além dos interesses institucionais da Assembleia. A mando do deputado, policiais do SISO teriam planejado e executado o sequestro e tortura do jornalista Romano dos Anjos, durante as eleições municipais de 2020, além de promoverem uma série de interferência para atrapalhar as investigações do caso. “Juntamente com o SISO, ele criou na ALERR uma verdadeira milícia, com especialistas em inteligência, oficiais e soldados militares de elite, leais a ele (incluindo integrantes de sua guarda pessoal) com a finalidade de servirem a seus caprichos e intimidarem seus adversários políticos”, definiu o Ministério Público de Roraima na denúncia apresentada em outubro do ano passado e que resultou na prisão de Jalser e outras 10 pessoas durante a Operação Pulitzer da polícia civil. Nove denunciados são policiais militares. Jalser foi preso em 1º de outubro de 2021, na segunda fase da operação. Mas cinco dias depois, em 6 de outubro, conseguiu um habeas corpus no STJ e passou a usar tornozeleira eletrônica. Mesmo assim, o deputado ficou pouco tempo sob monitoramento da Justiça. Em dezembro do ano passado, em decisão colegiada, o Tribunal retirou o equipamento do parlamentar. Apesar de a polícia e o Ministério Público entenderem que o deputado é o mentor intelectual da milícia, Jalser é o único entre os 10 denunciados que está solto, protegido por sua imunidade parlamentar. Todos os demais denunciados seguem presos preventivamente. Planos de uma ordem hierárquica As investigações apontam que o grupo seguia rigidamente a hierarquia militar. As ordens eram passadas aos coronéis Paulo Cézar, Natanael Felipe e Moisés Granjeiro, que por sua vez repassavam aos militares de baixa patente para execução. O InfoAmazonia teve acesso à denúncia do MP, que tem como base o inquérito policial, com quase 4000 páginas, e depoimentos colhidos pela Força Tarefa designada para investigar o sequestro do jornalista. O próprio governador de Roraima, Antonio Denarium (PP), afirmou em depoimento que foi procurado e ameaçado de morte pelo deputado, que teria dito que daria um tiro em Denarium e depois se mataria, se o governador não parasse a investigação.“Ele ficou aborrecido com a situação e naquele momento lá ele me falou que se por acaso [a investigação] chegasse no Coronel Paulo Cézar e que ele fosse preso ele me dava um tiro e se matava, ou seja, esquentou um pouco os ânimos ali e a conversa já terminou”, disse o governador em depoimento ao Ministério Público. Coronel da reserva e na época chefe da segurança institucional da Assembleia Legislativa, Paulo Cézar teria planejado o sequestro e tortura do jornalista Romano dos Anjos a pedido de Jalser. Apesar de adotarem uma série de cuidados para não serem descobertos, como manter celulares desligados na noite do crime, 26 de outubro de 2020, e de serem criteriosos nas trocas de mensagens por telefone e internet, o grupo não contava com astúcia do delegado João Evangelista dos Santos, que se concentrou em detalhes para rastrear os criminosos que o levaram até o gabinete da presidência da Assembleia. Os restos de uma fita adesiva do tipo silver tape —mais reforçada que as normais—, pegadas de coturno e marcas de pneus foram algumas das pistas deixadas pelo grupo. Além disso, os policiais fizeram uma varredura em torres de celulares e descobriram que membros da quadrilha monitoravam o jornalista dias antes do crime. Jalser deixou claro a sua preocupação com o rumo das investigações do caso Romano. Antes mesmo de ser tido como suspeito, o deputado tentou articular a troca do delegado titular do inquérito. Sem sucesso, acabou dedurado pela cúpula da Segurança Pública, pelo governador Denarium e pelo chefe da Casa Civil, deputado e soldado da PM Sampaio (PCdoB) —atual presidente da ALERR—, que confirmaram as ameaças contra o chefe do executivo. Ao delegado-geral da Polícia Civil, Herbert Amorim, procurado pelo deputado por telefone dias depois do crime, Jalser Renier teria dito: “Se tiver de matar alguém, eu vou lá e mato, se tiver que bater, eu vou lá e bato, eu não preciso mandar ninguém fazer isso não, isso é uma covardia que vocês estão fazendo”. Em depoimento à força-tarefa do MP, o delegado Herbert Amorim disse que Jalser se dirigia aos investigados como “meus coronéis”, afirmando que não poderiam ser presos. Ele criou na ALERR uma verdadeira milícia, com especialistas em inteligência, oficiais e soldados militares de elite, leais a ele (incluindo integrantes de sua guarda pessoal) com a finalidade de servirem a seus caprichos e intimidarem seus adversários políticos. Ministério Público de RoraimaPara a investigação, o desespero de Jalser soou como um “atestado de confissão”:“O denunciado Jalser [Renier] não era apenas o superior hierárquico dos demais investigados, mas com participação ativa, dirigia finalisticamente os demais, não apenas criando e aparelhando a milícia composta, majoritariamente, de policiais das forças de elite de sua confiança, mas coordenando suas atividades criminosas e tentando