13 de maio de 2026 21:11

Governo nomeia investigado por agressão enquanto exalta mulheres na segurança pública

Foto: Reprodução

A nomeação de um policial penal investigado por agredir a própria esposa para um cargo de comando no sistema prisional de Roraima escancara um paradoxo político e moral difícil de ignorar. A decisão ocorre justamente em um momento em que o novo governo tenta construir uma imagem de modernização e representatividade feminina na segurança pública, ao colocar mulheres em posições estratégicas da gestão estadual.

Na prática, o discurso da valorização das mulheres perde força quando convivem, dentro da mesma estrutura de governo, símbolos tão contraditórios. Não basta nomear mulheres para cargos importantes se, ao mesmo tempo, homens investigados por violência doméstica continuam recebendo espaço, poder e prestígio institucional. O recado que fica para a sociedade é perigoso: o de que a violência contra a mulher pode até gerar desgaste momentâneo, mas não impede ascensão dentro do aparelho público.

O mais grave é que estamos falando de um cargo ligado à segurança, disciplina e administração do sistema penitenciário. Quem ocupa uma função desse porte deveria carregar não apenas experiência técnica, mas também credibilidade moral e compromisso com a lei. Quando um governo escolhe alguém sob investigação por agressão doméstica para esse tipo de função, a mensagem enviada às vítimas é devastadora. Muitas mulheres já têm medo de denunciar por receio da impunidade e da proteção institucional dada aos agressores. Casos assim reforçam exatamente essa sensação.

O governo pode alegar que a nomeação respeita a presunção de inocência. E juridicamente isso é verdade. Mas política não se resume ao que é legal; envolve também coerência, sensibilidade e responsabilidade pública. Um gestor precisa entender que certos cargos exigem confiança social, principalmente quando o tema é segurança pública e combate à violência.

Existe ainda um contraste simbólico inevitável. Enquanto mulheres assumem funções estratégicas, o que deveria representar avanço institucional, decisões como essa acabam esvaziando esse próprio avanço. A presença feminina não pode servir apenas como vitrine política ou peça de marketing administrativo. Representatividade sem coerência vira apenas estética de poder.